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sábado, 26 de fevereiro de 2011

SE...

Já contei aqui muitas vezes histórias da minha família e, em especial, do meu pai, homem discreto, quieto, mas que muita coisa me ensinou nas conversas à roda da mesa de refeições, num tempo em que a televisão ainda não existia para nós.
Adquiridos por herança genética ou por influência de convívio, trago em mim muito dos gostos e sentimentos do meu pai.

Sensibilidade, romantismo, gosto por História e histórias, fascinação pelos mistérios da vida e pela Natureza, curiosidade, e paixão por leitura são algumas dessas heranças.

Entre as coisas que meu pai muito admirava está esse texto que eu também passei a admirar e que considero uma verdadeira receita de bem viver... à moda antiga !

Veja outros textos citando meu pai:
http://floradaserra.blogspot.com/2010/08/talvez-eu-seja-ultima-romantica.html
http://floradaserra.blogspot.com/2010/02/onde-cresceu-o-meu-pai.html

SE... de Rudyard Kipling

SE puderes guardar o sangue frio diante de quem fóra de si te acusar; e, no instante em que duvidem de teu ânimo e firmeza, tu puderes ter fé na própria fortaleza, sem desprezar contudo a desconfiança alheia...

SE tu puderes não odiar a quem te odeia, nem pagar com a calúnia a quem te calunia, sem que tires daí motivos de ufania; sonhar, sem permitir que o sonho te domine; pensar, sem que em pensar tua ambição se confine; e esperar sempre e sempre, infatigavelmente...

SE com o mesmo sereno olhar indiferente puderes encarar a Derrota e a Vitória, como embustes que são da fortuna ilusória; e estóico suportar que intrigas e mentiras deturpem a palavra honesta que profiras...

SE puderes, ao ver em pedaços destruída pela sorte maldosa, a obra de tua vida, tomar de novo, a ferramenta desgastada e sem queixumes vãos, recomeçar do nada...

SE, tendo loucamente arriscado e perdido tudo quanto era teu, num só lance atrevido, tu puderes voltar à faina ingrata e dura, sem aludir jamais à sinistra aventura...

Se tu puderes coração, músculos, nervos reduzir da Vontade a condição de servos, que, embora exaustos, lhe obedeçam ao comando...

SE, andando a par dos reis e com os grandes lidando, puderes conservar a naturalidade, e no meio da turba a personalidade; impávido afrontar adulações, engôdos, opressões; merecer a confiança de todos, sem que possa contar, todavia, contigo incondicionalmente o teu melhor amigo...

SE de cada minuto os sessenta segundos tu puderes tornar com o teu suor fecundos...

a Terra será tua, e os bens que se não somem, e, o que é melhor, meu filho, então serás um Homem !

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rudyard_Kipling


http://floradaserra.blogspot.com/2010/08/talvez-eu-seja-ultima-romantica.html
http://floradaserra.blogspot.com/2010/02/onde-cresceu-o-meu-pai.html

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O QUE OUVI DOS ANTIGOS...

Minha família sempre foi muito falastrona !
Os antigos falavam, contavam histórias, passavam conhecimento e sabedoria.
Entre esses ítens, os ditados eram constantes e penetraram em nossas lembranças revivendo tempos idos e saudosos.

Eu gostaria de fazer um apanhado desses ditos e termos para passar para as novas gerações.
Minha sobrinha certo dia contou que os amigos estranhavam sua eterna exclamação: "isso parece sangria desatada !" Achei muito interessante que ela conservasse o termo que ouvia da mãe, que ouviu da avó.

Meu pai era campeão de usar esses ditados e lembro de alguns, que também uso:

- não se deve sustentar burro a pão-de-ló
- a cavalo dado não se olham os dentes
- mais vale um pássaro na mão do que dois voando
- água mole em pedra dura, tanto bate até que fura
- casa de ferreiro, espeto de pau
- diga-me com quem andas e eu te direi quem és
- de boas intenções o inferno está cheio
- em terra de cego, quem tem um olho é rei
- há sempre um chinelo velho para um pé doente
- não se deve jogar pérolas aos porcos
- nunca se deve dizer: desta água não beberei
- os últimos serão os primeiros
- o teu limite termina onde começa o do outro
- seguro morreu de velho
- o saber não ocupa espaço
- para o bom entendedor, meia palavra basta
- santo de casa não faz milagre
- cor de burro quando foge



Minha avó materna gostava de dizer:

- é como lavar a cara a burro negro
- é de pequenino que se torce o pepino
- nem tanto ao mar, nem tanto a terra
- o que arde cura
- fala mais do que o "preto do leite" (hoje temos que dizer afro-descendente...)


Minha mãe dizia:
- antes só do que mal acompanhado
- roupa suja lava-se em casa
- cada cabeça uma sentença
- à noite todos os gatos são pardos
- em boca fechada não entra mosca
- faz o que eu digo, e não o que eu faço
- há remédio para tudo, menos para a morte
- não coloque o carro na frente dos bois
- nem oito nem oitenta
- malhando em ferro frio
- o que não tem remédio, remediado está
- paga o justo pelo pecador
- para morrer, basta estar vivo
- o peixe morre pela boca
- quem quer vai, quem não quer manda

Deliciosos termos, puros, sábios, profundos. Com poucas palavras dizia-se muito. Eram códigos conhecidos por todos.
Gosto disso !

Nas fotos:
- uma casa muito antiga (1932) em que morei, faz muito, muito tempo.
- minha avó materna, minha tia, minha mãe, em tempos muito, muito antigos.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ONDE CRESCEU O MEU PAI.


Meu pai nasceu no Enxertado, uma aldeia pequenina e tão remota que para chegar nela só em lombo de burro!

Passou sua infância entre o Enxertado e Felgueiras, onde também morou.

No inverno a água congelava, e ficava impossível ir à escola com o caminho tão coberto de neve.

Mas o rio que por lá passava tinha águas tão cristalinas que dava para se enxergar o fundo !

E a linda Serra da Estrela ficava perto.


Na foto, a casa da Mãe-Velha, em 1953.

Essas e outras histórias fui ouvindo de meu pai que, homem sensível e saudoso, gostava de relembrar sua infância em terras portuguesas.

Quando meu pai tinha 11 anos meu avô veio com a família “tentar a sorte” no Brasil.

Aos 25 anos meu pai voltou, à passeio, a sua terra e lá encontrou as mesmas emoções que o acompanharam por toda a sua vida. A casa de sua avó - carinhosamente chamada de Mãe Velha - de pedra como tantas outras existentes nas aldeias de Portugal , lá estava, tão pequenina agora que precisava abaixar-se para passar pela porta. Mas ela não era enorme ?

E a árvore que ele avistava, pertinho da janela do quarto em que dormia , e onde os passarinhos vinham cantar para alegrá-lo ?

E as frutas maravilhosas, colhidas no pé, saborosas e doces como não existiam em nenhum outro lugar ?

Nessa ocasião, já adulto, meu pai pode reconhecer as belezas de sua terra natal, recordando os dias difíceis, porém felizes, vividos naquele cantinho das montanhas.

Em 1968, já com 66 anos, meu pai visitou pela última vez sua aldeia, levando minha mãe para conhecer aquele lugar encantado que ele guardava no coração. Agora já não era preciso subir no lombo do burro, pois existiam estradas e carros para chegar até lá !

Na foto, meu pai, em 1968, aguando as flores da minha avó Olívia.

Nunca visitei a terra do meu pai, mas suas palavras ficaram eternamente marcadas em minha memória. Sinto um carinho imenso por esse lugar que não conheço pessoalmente, mas que também faz parte da minha vida.

Meu pai, como consta em seus documentos: Antonio Guedes de Mello , natural de Eirado do Enxertado, Freguesia de Resende, Concelho de Resende, Distrito de Viseu.



terça-feira, 22 de dezembro de 2009

DOCES RECORDAÇÕES...

Natal é tempo de alegria, mas também de saudade. Saudade de Natais passados, de pesssoas queridas que não estão mais presentes, embora jamais sejam esquecidas. Tempo de lembranças doces com pitadas de tristeza...

De algumas pessoas conservamos objetos, de outras somente fotos ou a lembrança da sua presença.
A linda guitarra, já sem cordas e outras peças, pertencia à minha mãe. Guardo com muito carinho, como objeto de decoração.

Meu pai era um homem sensível e romântico e um dia escreveu no meu bloco de rascunho escolar a letra da canção O Cigano, música que ele gostava muito, e eu na época, com meus 13 anos, nem sabia como era.
Muitos anos depois, aqui em São Lourenço, tive a oportunidade de ouvir a tal canção e também encantei-me com ela, na linda voz do Francisco Alves.
O bloco, guardado até hoje, transporta-me para 1958, e para a alma emotiva de meu pai.

O saco de retalhos, não patchwork, por favor, foi feito por minha avó Olívia, e ela usava para guardar retalhos. É uma das minhas queridas relíquias, trazendo-me a lembrança de tempos muito antigos, numa pequenina casa na Piedade.

Essa preciosidade pertenceu ao meu avô Adelino, e deve ter sido muito usado na década de 1920! Pena que está bem quebrado, pois nos brincamos um bocado com ele.


Da minha avó Flora, trago aqui uma entrada para o Parque das Águas de São Lourenço, em 1964. O nome do hotel em que a pessoa estava hospedada, aparecia em cima: Sul América.

Esse tempo de Natal faz dessas coisas comigo...

sábado, 27 de setembro de 2008

MARIA, MARIAS

"Maria, o teu nome principia na palma da minha mão , e cabe bem direitinho, dentro do meu coração". Maria, de Ary Barroso, é , para mim a mais linda Maria que conheço. Maria, Mari, Marias de Minas...Minha mãe também era Maria. Minha tia querida também era Maria. Eu também sou Maria !
Maria, mulher, mãe. Tantas Marias, tantas vidas, tantas histórias.
Finalizando o excelente curso de Design de Artesanato, oferecido pelo Sebrae, escolhemos o nome do grupo que está participando e vai expor numa mostra de artesanato - MARIAS DE MINAS !
Envolvida pela magia do nome, trago fotos de minha mãe Maria, ainda menina, em Portugal.
Na sua Primeira Comunhão minha mãe fez sucesso com o lindo vestido confeccionado com o tecido que o pai mandou do Brasil.
Com 3 anos minha mãe era uma menina muito bonita e comportada. Minha avó Olívia está com o vestido preto do seu casamento, pois naqueles tempos idos era assim.
Aqui, ainda miudinha, séria e compenetrada. Minha avó usando o tradicional cordão com o retrato do marido, que distante recebia os pomposos retratos vindos de além-mar.

Histórias de Marias, histórias de mulheres, histórias de vidas...