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sábado, 3 de abril de 2010

A PÁSCOA DA MINHA INFÂNCIA.

Nos tempos da minha infância, lá pelos longínquos anos 50, as modas e costumes do período quaresmal eram muito diferentes dos dias atuais. Dias de seriedade, tardes melancólicas, normalmente cinzentas, pesadas. Na Sexta-Feira Santa, havia um respeito e uma tristeza no ar, como se o tempo estivesse parado e todo o sofrimento do Senhor esparramado sobre a humanidade silenciosa.


No rádio, somente músicas sacras, clássicas e fúnebres. Sim, fúnebres, pois era assim que elas soavam aos ouvidos das crianças.

Morávamos no Rio de Janeiro, capital do Brasil, cidade grande, alegre e agitada, mas naqueles tempos idos, havia um grande respeito pelas coisas de Deus, e respeitar a Sexta-Feira Santa era a regra máxima dos Homens.

FOTO: Na Igreja Matriz de São Lourenço Mártir, a imagem da Mater Dolorosa, coberta de roxo durante a Quaresma.

Contava meu pai - aquele homem quieto e tímido, mas excelente contador de histórias - que no seu tempo de jovem, já no Brasil ( pois aqui chegou aos 11 anos em 1913, vindo da sua pequenina aldeia portuguêsa, aquele cantinho remoto das montanhas, lá no Enxertado) as coisas eram muito mais sérias. Até o sino que existia no bonde era amarrado, para que não tocasse à tôa, tão grande era o respeito ao dia santificado dos cristãos.

FOTO: Na Ermida Bom Jesus do Monte, a réplica do Santo Sudário.

Ah, mas existia o Domingo de Páscoa, para quebrar o jejum de alimento e alegria !
As crianças esperavam ansiosamente pelos ovos de chocolate, presente que não podia faltar naquela data festiva.
Seguindo uma tradição, talvez portuguesa, os padrinhos eram os responsáveis por presentear com a guloseima tão esperada.
E quanto mais "rico" fossem os padrinhos, maior seria o ovo recebido !

FOTO: Os doces deliciosos da festa de bodas de um querido amigo. Delícia pura !


Ora, na minha família, também seguindo antigas tradições, eu como filha mais velha, tinha como padrinhos meus avós maternos - Adelino Tavares e Olívia Marques Tavares, o ramo da família vinda da região de Aveiro. Meu avô, como ele sempre dizia, não era rico nem pobre e sim, remediado. Assim sendo, meu ovo de Páscoa era pequeno e discreto, também remediado.
Meus 3 irmãos tinham como padrinhos os tios, irmãos do meu pai, mesmo porque minha mãe era filha única. E esses tios eram mais abonados. Portanto, meus irmãos ganhavam ovos bem maiores do que os meus...

Como uma criança lida com esses apelos mundanos ? Confesso que não era fácil para mim, mas o carinho e cuidado que eu tinha para com meus avós velhinhos e que me amavam muito, fazia com que eu superasse o "trauma do ovo pequeno", e festejasse a Páscoa com a alegria pura e ingênua de um tempo em que o Ser era mais importante do que o Ter.

Feliz Páscoa, meus amigos !

FOTO: Reunião de domingo na casa dos meus avós. Vovó Olívia, quieta e com ar tristonho; Vovô Adelino, forte e seguro; minha mãe Maria, simpática e risonha; eu, sorrindo feliz; minha irmã Nelia, quietinha e comportada.